Pular para o conteúdo

Antônio José Rennó

O coronel Antônio José Rennó foi fazendeiro, chefe do Partido Conservador em Itajubá e duas vezes presidente da Câmara e agente executivo do município, nos quatriênios de 1873–1876 e 1887–1890. Presidiu a Comissão Libertadora de 1888 e a sessão em que a Câmara aderiu à República, em novembro de 1889. Morreu em 14 de março de 1894, e a Câmara deu seu nome à antiga Rua Direita, hoje Rua Coronel Rennó.12345

Antônio José Rennó era filho do genearca da família Rennó em Itajubá, e sua irmã, D. Virgínia Emília Rennó, casou com o médico Américo da Silva e Oliveira.6 A mulher, D. Lúcia Pereira dos Santos Rennó, integrou em 1884 a comissão de senhoras que organizou a festa de Nossa Senhora da Boa Morte.7 O filho, o capitão João José Rennó, foi agente executivo em 1892 e morreu em 5 de novembro de 1925.8

Rennó vendia leite na cidade, tinha canaviais e cafezal e alugava carros de bois com seus carreiros.910111213 Em 1883, o jornal O Itajubá registrou os inhames colhidos na fazenda dele: 1,60 metro de comprimento e 39 quilos.14 Em 1889 ele instalou uma máquina Lidgerwood de beneficiar café, como já tinham feito o fazendeiro José Martins Tosta e o Barão de Camanducaia.15 Doou à Câmara faixas de terra para abrir e alongar ruas da cidade.16

Foi também um dos maiores senhores de escravos do município. Em 20 de outubro de 1862, o capitão Rennó comprou de José Ribeiro da Costa, em escritura condicional, uma escrava chamada Maria, de quarenta anos, por 500 mil réis.17 Em 1886, segundo Armelim Guimarães, ele tinha cerca de cem cativos.18

Rennó era capitão da 3ª Companhia do 39º Batalhão da Guarda Nacional. Em 1891 foi promovido a coronel e nomeado comandante superior da Guarda Nacional de Itajubá, no lugar do coronel Joaquim Francisco Pereira Júnior.19 Para os fatos anteriores a 1891, Armelim Guimarães alterna os dois títulos.

Foi juiz de paz em 1853 e em 1881.20 Como primeiro juiz de paz em exercício, assinou em 1881 um edital eleitoral que já marcava a votação na casa da Câmara, e não mais na igreja, no ano da primeira eleição direta para as assembleias.21

Na Câmara, presidiu parte do quatriênio de 1873–1876 e parte do de 1887–1890, dividindo a presidência com João Carneiro Santiago Sobrinho e José Antônio de Sousa Pinto no primeiro e com Alexandre Mendes de Brito no segundo. A presidência da Câmara acumulava então a chefia do executivo municipal.1222 Armelim conta que, como presidente, Rennó obrigou um fazendeiro, compadre e amigo íntimo, a pagar os estragos que o carro de bois dele fizera numa ponte da Câmara; no dia seguinte, mandou de presente ao compadre uma novilha que valia mais que a indenização.23

Com o advogado José Manuel Pereira Cabral e o médico Américo da Silva e Oliveira, Rennó chefiou os conservadores, os cascudos, contra os liberais, os ximangos, de Aureliano Moreira Magalhães, Joaquim Francisco Pereira Júnior e Frederico Schumann.249 As eleições ainda se faziam na Matriz quando um grupo de ximangos invadiu a igreja à noite para tomar a urna dos conservadores. Um homem apelidado Serrador, fiel ao coronel Rennó, agarrou-se à urna e foi baleado por Matias Correia de Miranda. O farmacêutico Frederico Schumann, embora liberal, tratou do ferido.2526

Em maio de 1885, Aureliano Magalhães ofereceu uma festa aos liberais pela volta do gabinete Saraiva, para provocar Rennó, Pereira Cabral e Américo de Oliveira. Na hora da passeata, os músicos acharam os tambores com a pele cortada e os instrumentos de sopro sem bocal, e os foguetes estavam cheios de terra. Aureliano esperou o revide. Em agosto, quando subiu o gabinete conservador de Cotegipe, Rennó e seus correligionários festejaram, e a banda contratada começou a tocar em frente às casas dos chefes liberais. Um bando de escravos capoeiras entrou no meio dos músicos e dos acompanhantes e desfez a passeata a rasteiras.262728

Em 1884, o Clube de Lavoura e Comércio de Barra Mansa pediu à Câmara de Itajubá que criasse um centro de reação aos “excessos dos abolicionistas”. A Câmara nomeou uma comissão para dar parecer, e Rennó e o vereador João Carneiro representaram nela a freguesia da cidade.29

Em 11 de março de 1888, Rennó convocou a reunião dos fazendeiros da freguesia da Vila, que criou a Comissão Libertadora, e presidiu a comissão.303 No mesmo dia a Câmara constatou que não havia mais escravos dentro da cidade. Armelim Guimarães escreve que Rennó deu o exemplo libertando todos os seus 78 escravos, e cita a nota do coronel Francisco Brás Pereira Gomes em O Itajubá, que atribuía o mérito do dia ao “Cap. Rennó”, o maior senhor de escravos do município.3

O Memorial da Câmara lê as mesmas reuniões de outro modo. Segundo O Itajubá de 13 de março de 1888, os fazendeiros da freguesia da Vila declararam os escravos libertos com a obrigação de trabalhar para os antigos senhores até 25 de dezembro: sem salário até 7 de setembro, com um dia livre por semana, e depois com salário fixado pelos ex-senhores. Para o Memorial, essas medidas buscavam garantir a mão de obra nas fazendas.30 O número de escravos também diverge entre as fontes: cerca de cem em 1886 e 78 na alforria de 1888.183

Quando a notícia da República chegou a Itajubá, o Clube Republicano aclamou um governo provisório de três membros, que exigiu da Câmara os livros e o cofre. Em 19 de novembro de 1889, Rennó presidiu a sessão extraordinária em que a Câmara votou a adesão ao novo regime, e no dia seguinte assinou o edital que a anunciou.313233 Em 29 de novembro entrou no diretório do Partido Republicano, com Antônio Maximiano Xavier Lisboa, Luís Dias Pereira e outros, e continuou a assinar os editais como presidente e agente executivo até 1º de março de 1890, quando o governo do estado dissolveu a Câmara e criou a Intendência.343335 Mais tarde presidiu o diretório do Partido Republicano Progressista, fundado numa reunião de eleitores em 14 de abril; o Memorial da Câmara transcreve a notícia sem o ano.36

Rennó fez parte da mesa diretora das obras da nova Matriz em 1873 e da comissão de reparação do templo em 1887. Em 1893, o cônego Quartin registrou que ele dera à igreja um pálio branco bordado a ouro, de mais de um conto de réis.373839 Em 1886, pôs seus escravos na terraplenagem do novo cemitério, com quarenta deles trabalhando a partir de 15 de março. Presidente da Câmara, integrou a comissão das obras e, em 22 de março de 1889, proibiu por edital os enterros no cemitério velho.1840

Foi tesoureiro do Clube Literário e Recreativo Itajubense, fundado em 1880, e acionista do Teatro Santa Cecília.4142 Em dezembro de 1887 entrou na comissão que vendia ações da Estrada de Ferro Sapucaí, e em 1893 na que recolheu donativos para a Faculdade Livre de Minas.4344

Antônio José Rennó morreu em 14 de março de 1894.4 Está sepultado na capela que a família construiu no cemitério novo como jazigo, e que a cúria de São Paulo autorizou benzer em 1895.45 Em junho de 1894, a Câmara aprovou por unanimidade a troca do nome da Rua Direita para Rua Coronel Rennó.5

A casa em que ele morou, no alto da rua, perto da Matriz, foi comprada por Theodomiro Carneiro Santiago, que ali instalou em 1913 o Instituto Eletrotécnico e Mecânico de Itajubá.46 Numa casa da viúva, na esquina das atuais ruas Francisco Pereira e Pereira Cabral, funcionou a Escola Normal inaugurada em 1897.47 Em 1895, a viúva e o herdeiro João José Rennó negociaram com a Câmara o uso de um manancial do cafezal da família para abastecer a cidade de água.13

  1. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 293. ↩ ↩2

  2. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 297 e 298. ↩ ↩2

  3. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 170. ↩ ↩2 ↩3 ↩4

  4. Armelim Guimarães. Efemérides Itajubenses. 1988, verbete de 14 de março de 1894. ↩ ↩2

  5. Memorial da Câmara Municipal de Itajubá: Desenvolvimento Urbano (1892–1930). Itajubá, 2012, capítulo sobre a memória nos nomes das ruas. ↩ ↩2

  6. Armelim Guimarães. Itajubá e Sua História (II Parte). 1999, p. 87. ↩

  7. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 562. ↩

  8. Armelim Guimarães. Efemérides Itajubenses. 1972, p. 76. ↩

  9. Resumo Didático da História de Itajubá. 2000, p. 40. ↩ ↩2

  10. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 195. ↩

  11. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 230. ↩

  12. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 330. ↩

  13. Memorial da Câmara Municipal de Itajubá: Desenvolvimento Urbano (1892–1930). Itajubá, 2012, capítulo sobre o abastecimento de água. ↩ ↩2

  14. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 328. ↩

  15. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 325. ↩

  16. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 130. ↩

  17. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 163. ↩

  18. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 535. ↩ ↩2 ↩3

  19. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 246. ↩

  20. Comarca de Itajubá 1872–2022. 2022, p. 212 e 213. ↩

  21. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 294. ↩

  22. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 320 e 321. ↩

  23. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 184. ↩

  24. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 262. ↩

  25. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 258, citando crônica de Cornélio de Faria na revista F. I., 1940. ↩

  26. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 259. ↩ ↩2

  27. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 260. ↩

  28. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 251. ↩

  29. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 166. ↩

  30. Memorial da Câmara Municipal de Itajubá: Formação do Município (1849–1889). Itajubá, 2012, capítulo sobre os fazendeiros e a extinção da escravidão. ↩ ↩2

  31. Armelim Guimarães. Efemérides Itajubenses. 1988, verbetes de 17, 18 e 19 de novembro de 1889. ↩

  32. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 270. ↩

  33. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 271. ↩ ↩2

  34. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 266. ↩

  35. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 273. ↩

  36. Memorial da Câmara Municipal de Itajubá: Desenvolvimento Urbano (1892–1930). Itajubá, 2012, anexo 19, notícia da fundação do Partido Republicano Progressista. ↩

  37. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 569. ↩

  38. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 572. ↩

  39. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 571. ↩

  40. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 540. ↩

  41. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 454. ↩

  42. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 432. ↩

  43. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 208 e 209. ↩

  44. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 393. ↩

  45. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 541. ↩

  46. Armelim Guimarães. Itajubá e Sua História (I Parte). 1998, legenda da foto do início da Rua Cel. Rennó. ↩

  47. Armelim Guimarães. História de Itajubá. 1987, p. 377. ↩

No acervo fotográfico

3 fotografias do acervo da História de Itajubá , em ordem de data.

Ver no acervo →